sábado, 7 de junho de 2014

O LIBERALISMO TEOLÓGICO


Vejamos agora alguns nomes implicados no liberalismo teológico, responsáveis pelos novos rumos tomados pelo protestantismo:





 Friedrich Schleiermacher (1768-1834)





Teólogo e filósofo alemão, embora anti-racionalista, ensinou que não há religiões falsas e verdadeiras. Todas elas, com maior ou menor grau de eficiência, têm por objetivo ligar o homem finito com o Deus infinito, sendo o cristianismo a melhor delas.

  
Ao harmonizar as concepções protestantes com as convicções de burguesia culta e liberal, Schleiermacher foi considerado radical pelos ortodoxos, e visionário pelos racionalistas. Na verdade, o seu pensamento filosófico-teológico, embora considerado liberal, está mais perto do transcendentalismo de Karl Barth.






Adolf Von Harnack (1851 -1930)





 Teólogo protestante alemão, em cuja obra principal História dos Dogmas defende que a evolução dos dogmas do cristianismo se deu pela helenização progressiva da fé cristã primitiva. Em outra obra, A essência do cristianismo, reduziu a religião cristã a uma espécie de confiança em Deus, sem dogma algum e sem cristologia.











D. Albrecht Ritschl (1822 -1889)








Ritschl ressaltou o conteúdo ético da teologia cristã e afirmou que esta deve basear-se principalmente na apreciação da vida interior de Cristo.








David Friedrich Strauss (1808-1874)




Foi o teólogo alemão que maior influência exerceu no século XIX sobre os não-teólogos e não-eclesiásticos. Tornou-se professor da Universidade de Tubingen com apenas 24 anos. Quatro anos mais tarde, em 1836, foi furiosamente afastado do cargo em virtude de sua obra denominada Vida de Jesus - criticamente estudada.






No ano de 1841 lançou, em dois volumes - A Fé Cristã - Seu Desenvolvimento Histórico e seu Conflito com a Ciência Moderna. Nesta obra está negando completamente a Bíblia, a Igreja e a Dogmática. Em 1864 publicou uma segunda Vida de Jesus, quando procurou então distinguir o Jesus histórico do Cristo ideal segundo a maneira típica dos liberais do século XIX. Em sua A Antiga e a Nova Fé, publicada em 1872, adota a evolução darwiniana em contraste com a fé bíblica.


Para Strauss, Jesus é mero homem. Insiste em que é necessário escolher entre uma observação imparcial e o Cristo da fé. Ensinou que é preciso julgar o que os Evangelhos dizem de Jesus pela lei lógica, histórica e filosófica, que governa todos os eventos em todos os tempos. Não achou e não procurou um âmago histórico, mas interessou-se apenas em mostrar a presença e a origem do mito nos evangelhos.

Seu conceito do mundo é o de matérias subindo para formas cada vez mais altas. À pergunta: "Como ordenamos nossas vidas?" - responde: Autodeterminação, seguindo a espécie.

Nas obras de Strauss não há lugar para o sobrenatural. Os milagres são mitos, contados para confirmar o papel necessário de Jesus, daí as referências ao Velho Testamento. Em resumo, Jesus é uma figura histórica. Da vida de Jesus nada sabemos, sendo tudo mito e lenda.

Considerado o mais erudito entre os biógrafos infiéis de Jesus, Strauss encerra o último capítulo da sua segunda Vida de Jesus com estas palavras: 

"...aparentemente aniquilaram a maior e mais importante parte daquilo que o cristão se acostumou a crer concernente a Jesus; desarraigaram todos os encorajamentos que ele tem tirado de sua fé e privaram-no de todas as suas consolações. Parece que se acham irremediavelmente solapados os inesgotáveis depósitos de verdade e vida que por dezoito séculos têm sido o alimento da humanidade; o mais sublime atirado ao pó, Deus despido de sua graça, o homem despojado de sua dignidade, e o laço entre o céu e a terra rompido. Recua a piedade em horror diante de um ato tão temeroso de profanação, e, forte como é na impregnável evidência própria de sua fé, ousadamente conclui que - não importa se um criticismo audaz tentar o que lhe aprouver tudo o que as Escrituras declaram e a Igreja crê acerca de Cristo subsistirá como verdade eterna; nem sequer um jota ou um til será removido."


Philip Schaff comenta que:

Strauss professa admitir a verdade abstrata da cristologia ortodoxa, "a união do divino e humano, mas perverte-a, emprestando-lhe um sentido puramente intelectual, ou panteísta. Ele nega atributos e honras divinas à gloriosa Cabeça da raça, mas aplica os mesmos atributos a uma humanidade acéfala.


Destarte, ele substitui, partindo de preconceitos panteístas, uma viva realidade por uma abstração metafísica; um fato histórico por uma mera noção; a vitória moral sobre o pecado e a morte por um mero passo na filosofia e em artes mecânicas; o culto do único vivo e verdadeiro Deus por um culto panteísta de heróis, ou própria adoração de uma raça decaída; o pão nutriente por uma pedra; o Evangelho de esperança e vida eterna por um evangelho de desespero e de final aniquilamento.




Sorem Kierkegaard (1813-1855)







Teólogo e filósofo dinamarquês. Filho de um homem rico torturado por dúvidas religiosas e sentimentos de culpa, Kierkegaard adquiriu complexos de natureza psicopatológica e possíveis deficiências somáticas. Estudou teologia na universidade de Copenhague, licenciando-se em 1841.

 Atacou a filosofia de Hegel e afastou-se mais e mais da Igreja Luterana, por julgá-la muito pouco cristã. Para o teólogo dinamarquês, entre as atitudes (fases) estética, ética e religiosa da vida não há mediação, como na dialética de Hegel, e não há entre elas transição, no sentido de evolução. Para chegar da fase estética à fase ética ou desta à religiosa é preciso dar um salto (ser iluminado, converter-se instantaneamente) que transforme inteiramente a vida da pessoa.


Para Kierkegaard, só o cristianismo é capaz de vencer heroicamente o mundo, sendo o panteísmo cultural de Hegel impotente contra a consciência do pecado e contra o medo e temor. Criticou o hegelianismo em sua acomodação ao mundo profano, por não ser capaz de eliminar a angústia e admitir a existência de contradições irresolúveis entre o cristianismo e o mundo, cabendo ao homem escolher existencialmente entre esta e aquela alternativa: ser cristão ou ser não-cristão.


São profundos os conceitos de Kierkegaard sobre os estágios da vida, a diferença entre ser e existir, o subjetivo e o objetivo, o desespero, os critérios positivos para a verdadeira existência, etc.


 Eis alguns deles:


No estágio estético, o homem leva uma existência imediata e não refletiva, faltando a diferenciação entre ele e o seu mundo; No estágio ético, o homem assume a responsabilidade pelo seu próprio ser, procura alcançar-se a si - o que não pode fazer; No estágio religioso, reconhece a impossibilidade de viver conforme gostaria e descobre que o pecado é não ser o que Deus deseja que seja, e que só se alcança este estado proposto por Deus através de algo que vem de fora - o próprio Deus;

O tempo (e espaço) trata do que o homem é, da sua existência; a eternidade significa que, embora o homem viva no tempo e no espaço, ele não está totalmente determinado por estes elementos; a existência fala de liberdade, possibilidade, do ideal, da obrigação; o momento de decisão é quando a eternidade intercepta o tempo;


O objetivo cultural é aquilo que é, enquanto o homem fica entre o que é e o que ele pode e deve ser. A ciência limita-se ao estudo do que é, ao que ela chama "a verdade"; mas os fatos claramente aceitos jamais encerram a verdade;

A essência do ser humano aparece quando traz a eternidade para dentro do tempo. Cada homem há de sofrer porque vive numa realidade muito física: liberdade versus tempo;

O único que realmente resolveu o paradoxo do tempo e da eternidade foi Jesus Cristo. Ele mesmo foi um paradoxo: Deus e homem; limitado e ilimitado; ignorante e conhecedor de tudo.


Soren Kierkegaard, redescoberto na Alemanha por volta de 1910, é considerado o precursor da teologia transcendental de que Karl Barth  no século XX, é o principal representante.




EXAME CRÍTICO


 1. Foi a partir de meados do século XIX, como conseqüência da grande vitalidade intelectual e reorientação do pensamento, que nasceu a teologia liberal. Foi esta uma época de renascimento religioso em geral e, em particular, de expansão do protestantismo, institucional e geograficamente caracterizada pelas missões e surgimento das sociedades bíblicas.


2. O liberalismo teológico, em sua essência, procura libertar as consciências cristãs das suas amarras escolásticas, apontando-lhes as exigências da razão. Realça a pessoa de Deus como a fonte de toda a verdade e enfatiza a necessidade de uma certeza sincera na busca da verdade, embora reconheça a impossibilidade do ser humano alcançar um conhecimento pleno da verdade absoluta.


3. A maioria dos teólogos da atualidade considera hoje insustentável essa premissa liberalista de que o espírito humano não possa mover-se em regiões para além do alcance dos sentidos, além do raciocínio meramente racional. Para Platão, o intelecto tem idéias supersensíveis, inexplicáveis à luz da razão, sendo que é neste reino que residem os característicos principais e distintivos da alma humana. Modernamente, é cada vez maior o número dos que conhecem uma área essencialmente metafísica, portanto fora do alcance dos meios físicos, na qual o espírito obedece às leis de sua própria natureza.


4. Segundo os teólogos liberais, o protestantismo precisa "incorporar à sua teologia os valores básicos, as aspirações e as atitudes características da cultura moderna, ressaltando, dentre outros, o imperativo ético do Evangelho." (Enciclopédia Mirador). 

Dessa pregação nasceu o evangelho social, onde a mensagem de Cristo deixa de ser o poder de Deus para a salvação e regeneração do homem, para tornar-se apenas uma fórmula social, impotente. 

"A Igreja transcende os métodos e as fórmulas humanas. Ela produz aquela vida plena de riqueza, que é o espírito livre e nobre em ação; pensa os melhores pensamentos; aceita os mais elevados ideais e os reveste de uma linguagem irresistível. Assim ela infunde um poder criador na sociedade de espíritos humanos... Não há fórmula suficiente boa para tornar boa uma sociedade, se não for executada por homens bons. O cristianismo não elabora fórmulas, mas cria os homens capazes de insuflar força moral em qualquer fórmula" (Lynn Harold Hough).


5. O movimento liberalista não reivindicou apenas amplas liberdades para o exercício da razão, mas pregou a tolerância entre as denominações protestantes, aproximando-as, através da minimização das diferenças doutrinárias.


6. O ressurgimento da intolerância religiosa no seio do catolicismo romano, nas primeiras décadas do século passado, o que resultou na prisão e morte de protestantes em diversos países, especialmente na Estônia, Lituânia, Letônia, Turquia, Pérsia, Portugual e Espanha, contribuiu também para aproximar entre si as denominações evangélicas. A organização, em 1846, da Aliança Mundial Evangélica, em Londres, foi uma resposta ao estado de insegurança em que se achavam várias correntes do protestantismo. Essa Aliança muito fez pela liberdade de culto em todo o mundo.


7. Mas o espírito liberal reclama ainda respeito pela ciência e pelos métodos científicos de pesquisas, o que implica na aceitação franca do estudo, tanto do mundo material como da crítica bíblica e da história da Igreja. 
Foi valendo-se desse estado de espírito favorável, que Darwin publicou a sua célebre obra As Origens das Espécies através de meios de seleção natural,em 24 de novembro de 1859, que provocou violentas e intermináveis polêmicas.


8. O liberalismo teológico aceita também o princípio da continuidade, ou seja, considera mais importantes as semelhanças do que os contrastes, admitindo-se a idéia da evolução para superar os abismos existentes entre o natural e espiritual, entre o homem e seu Criador, enfatizando mais a imanência do que a transcendência de Deus; o liberalismo prega ainda a confiança do homem no futuro, gerada pelas grandes conquistas em todos os campos da ciência.


Outras Doutrinas Liberais


1. Os credos primitivos são arcaicos e sem realidade para o mundo moderno.

2. A mente do homem é capaz de raciocinar segundo os pensamentos de Deus.

3. A mente deve estar aberta à verdade independentemente da fonte.

4. As doutrinas cristãs são símbolos de verdades racionais conhecidas pela razão humana.

5. A divindade de Jesus era uma declaração simbólica do fato de que todos os homens possuem um aspecto divino.

6. 0 conceito bíblico da revelação de Deus na história era ingênuo e pré-filosófico.

7. Os itens "4', "5" e "6" do parágrafo anterior sofreram influência do idealismo absoluto de Hegel e Letze. Os demais itens justificam plenamente alguns dos títulos do liberalismo: modernismo e racionalismo.

8. Como vimos, para o liberalismo Deus está presente em todas as fases da vida e não apenas em alguns eventos espetaculares. Assim, o método de Deus é o caminho da mudança progressiva e da lei natural, e o nascimento virginal de Cristo não condiz com a realidade, pois Deus está presente em todos os nascimentos.


9. Defendendo assim a imanência de Deus, o liberalismo podia aceitar a teoria da evolução, não negando a Deus, todavia, um ato criador, ou seja: Ele teria criado a primeira célula viva, da qual vieram todos os seres viventes, inclusive o homem.

10. O liberalismo reage contra um evangelho individualista, capaz de salvar o homem do inferno e não da sociedade corrompida, e insiste em que o reino de Deus não é além-túmulo e nem milênio, mas sim a sociedade ideal edificada pelo homem com o auxílio de Deus.

11. Na busca duma "sociedade ideal" muitos teólogos se têm inclinado para uma espécie de socialismo cristão, envolvendo-se em movimentos subversivos por acreditarem que as doutrinas de Marx e Engels, se destituídas de seu ateísmo, estariam em melhores condições de atender aos reclamos dos povos pela justiça social de que a própria mensagem evangélica.



 Sua atuação no Brasil




1. A entrada do liberalismo no Brasil remonta ao segundo decênio deste século, quando a Imprensa Metodista editou Pontos Principais da Fé Cristã, livro que nega a doutrina da expiação. Depois surgiram inúmeras obras modernistas, inclusive Religião Cristã, traduzida do italiano pelos reverendos, Dr. Alexandre Orechia e Matatias Gomes dos Santos.


  
2. As primeiras vítimas da teologia liberal em nossa pátria, segundo o falecido reverendo Raphael Camacho, apareceram por volta de 1930, na Faculdade Evangélica de Teologia, no Rio de Janeiro. Muitos livros adotados nesse estabelecimento de ensino religioso eram modernistas, como também o eram quase todos os seus professores.

  

3. Segundo Raphael Camacho, o rev. Othoniel Motta, professor de Geografia Bíblica, costumava dizer em classe: "Eu sou o pai dos hereges... Eu oro pelos mortos." O rev. Epaminondas do Amaral, professor de exegese do Velho Testa mento, negava tudo o que há de sobrenatural na Bíblia. O rev. Bertolaze Stela escreveu no "Estandarte", em 11/9/41, que todos os manuscritos da Bíblia foram contaminados por grandes mo dificações, e que não há esperança de se encontrar entre eles um texto que esteja próximo dos originais. Em "O Estandarte" de 15/9/53, este mesmo ministro escreveu: "Somente as palavras de Jesus constituem os ensinos e a religião de Cristo... a Bíblia contém a palavra de Deus." e fez suas as palavras do rev. Miguel Rizzo Jr., em A Nossa Mística: "Para uns a suprema autoridade está na Igreja (Católica Romana); para outros, nos espíritos do além (espíritas); para outros nas Escrituras (evangélicos), mas para nós está em Cristo." Eis aqui a heresia chamada cristicismo, que desassocia Cristo da Bíblia e afirma que somente as palavras ditas por Cristo é que são inspiradas.


  
4. Em 1938 os modernistas se manifestaram mais publicamente, de modo especial no seio da Igreja Presbiteriana Independente, sendo então resistidos pelos fundamentalistas, liderados pelo rev. Camacho. Travou-se acirrada luta doutrinária, luta que levou o rev. Camacho a desligar-se dessa Igreja e a organizar, em 11 defevereiro de 1940, a Igreja Presbiteriana Conservadora.


  
5. Também o ex-padre Humberto Rohden, escritor, conferencista e autor de uma tradução do Novo Testamento em português, no seu livro Pelo Prestígio da Bíblia na Era Atômica, faz uma dura arremetida contra o evangelismo bíblico do Brasil e uma exposição das teorias modernistas do pastor batista norte-americano, Harry E. Fosdick.



Obs.: Podemos entender e aceitar o liberalismo teológico como uma excelente ferramenta para melhor compreendermos a fé cristã, liberando-a de seus dogmas pré-estabelecidos que sacam sua beleza. Para melhor entender sua essencia, recomendo a leitura do livro: O QUE É CRISTIANISMO? (Editora Reflexão),  do grande teólogo alemão Adolf Von Harnack, disponível em: 

https://ssl5921.websiteseguro.com/editorareflexao1/Site.aspx/Produto/86-O-QUE-E-CRISTIANISMO?store=1


MARCELO VALLE

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Des-dogmatizar o cristianismo...é preciso!!

Como teólogo e defensor do processo do pensar teológico, me imagino vez por outra refletindo sobre os temas fundamentais da fé cristã e estou sempre em busca de um amadurecimento do conhecimento e de um aperfeiçoamento da vida cristã. 

Essa busca, a meu ver, deve necessariamente trazer consigo pressupostos que possibilitem um confronto e até mesmo uma crise com sua visão pessoal. Sem crise, não há mudança total. Mudanças só ocorrem quando existem confrontos. Sejam pessoais, sejam sociais, sejam espirituais. 

Se uma pessoa se diz teólogo ou pensador de quaisquer áreas do saber e não gosta de confrontos ou tem medo deles, esqueça...tem medo de encontrar a sua verdade! 

A reflexão do pensamento se assenta em uma busca da verdade e para isto não se pode ter medo de encontrá-la. A Verdade a que me refiro é a que está no campo cristão-teológico. 

Não consigo imaginar uma pessoa que professa a fé cristã, sem um mínimo de reflexão e de questionamento de sua própria fé. Parece-me que quanto mais "não imagino" tais pessoas, mais as encontro. É como um pesadelo que teima em retornar todas as noites. Talvez seja o caminho da Providência!

O questionamento dessa vez é sobre a famosa e ortodoxa doutrina da Trindade, base da maioria das igrejas cristãs.

Desde o ano de 2008, como sempre buscando mais e mais entender as doutrinas cristãs, certa vez deparei-me com um artigo com o seguinte título:

Se a Trindade não existe, como entender Mateus 28:19?

Este pequeno título foi uma bomba para mim. Chamei de maluco o homem que o escreveu. Isso mesmo, maluco!

Mas, lendo o conteúdo, verifiquei que algo estava realmente errado com a forma que há tempos eu vinha compreendendo o tema trindade. 

Este texto em nossas bíblias está redigido assim:
Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mateus 28:19 - AA) (Grifos meus)

O argumento do artigo citado acima foi pautado com muita coerência nos seguintes pormenores:

1 - Se Cristo supostamente disse isso, com certeza o disse para os onze discípulos que ele designou que deveriam ir para a  Galileia (Mateus 28:16);(grifo meu).

2 -  Pedro e os demais (Marcos 16:7,14) entenderam perfeitamente a ordem e podem nos dizer exatamente como obedeceram à esta ordem (se é que Jesus realmente a tenha dito);

3 - Quando vamos ao Livro de Atos e nas epístolas paulinas, encontramos os discípulos batizando apenas em nome de Jesus; Sem contar as passagens que se relacionam de algum modo ao batismo. 

Ex.: Atos 2:38 / Atos 8:12,16 / Atos 10:48 / Atos 19:4,5 / Rom. 6:3 / Gálatas 3:27 / Col. 2:11,12.

4 - Estudiosos do assunto encontraram evidencias na história da igreja e afirmaram que Mateus 28:19 [como está redigido] é fruto de um acréscimo posterior ao texto bíblico;

5 - Dentre estas, destaco 3 fortes evidências:

     5.1 - Em "Historia Eclesiástica" de Eusébio de Cesaréia, livro III, 5, II é dito o seguinte:
Depois da ascensão de nosso Salvador, os judeus acrescentaram ao crime cometido contra ele a invenção de inúmeras ameaças contra seus apóstolos: Estevão foi o primeiro que eliminaram, apedrejando-o ; depois dele, Tiago, filho de Zebedeu e irmão de João, a quem decapitaram ; e depois de todos, Tiago, o que depois da ascensão de nosso Salvador foi o primeiro designado para o trono episcopal de Jerusalém e morreu da forma que já descrevemos. E os demais apóstolos sofreram milhares de ameaças de morte e foram expulsos da terra da Judéia. Porém, com o poder de Cristo, que havia-lhes dito: Ide e fazei discípulos de todas as nações EM MEU NOME, dirigiram seus passos para todas as nações para ensinar a mensagem. (grifos meus).

     5.2 - No livro "O JUDAISMO E AS ORIGENS DO CRISTIANISMO" (David Flusser) -  Vol. II, pág. 156 é dito o seguinte:
A fórmula trinitária franca aqui é de fato notável, mas já foi mostrado que a ordem para batizar e a formula trinitaria faltam em todas as citações da passagem de Mateus nos escritos de Eusebio anteriores ao Concilio de Niceia. O texto de Eusébio de Mt. 28:19-20 antes de Niceia era o seguinte: "Ide e tornai todas as nações discipulas em MEU NOME,  ensinando-as a observar tudo o que vos ordenei" (grifos meus).


   5.3 - A BIBLIA DE JERUSALEM, uma das principais Bíblias impressas pela igreja Católica, no seu comentário de rodapé sobre Mateus 28:19 diz o seguinte: (veja a reprodução do texto original abaixo).

"É possível que, em sua forma precisa, essa fórmula reflita a influência do uso litúrgico posteriormente fixado na comunidade primitiva. Sabe-se que o livros dos Atos fala em batizar "no nome de Jesus". (Conforme Atos 1:5; 2:38). Mais tarde deve ter-se estabelecido a associação do batizado às três pessoas da Trindade”. (grifos meus).


clique aqui para ampliar a imagem


6 - Verifica-se que o contexto de Mateus 28:19 (sem o texto trinitário) encaixa perfeitamente comparando-se os textos de Marcos 16:15-20 com Lucas 24:45-47 e com a construção citada por Eusébio. A evidencia interna é muito forte mostrando que tanto o batismo bem como a própria concessão da autoridade dada por Deus a Cristo seria estendida aos discípulos, ausentando, portanto, a fórmula trinitária.



(Concessão da autoridade)


JESUS AGIA EM NOME DE DEUS ______ OS DISCÍPULOS AGIAM EM NOME DE JESUS


É importante citar também o que o antigo Cardeal Joseph Ratzinger (ex-papa) disse sobre Mateus 28:19, no livro de sua autoria chamado "INTRODUÇÃO AO CRISTIANISMO" - Cap. 2, pág. 82:

“A forma básica da nossa profissão de fé (Mateus 28:19) tomou forma ao longo dos séculos segundo e terceiro d.C. em conexão com a cerimônia do batismo. Trata-se originariamente de uma fórmula nascida na cidade de Roma.” (grifos meus).


(1º CONCILIO DE NICEIA - 325 E.C)



O leitor está conseguindo perceber estas posições aqui expostas? Podemos resumí-las assim:


1 - A influência do pensamento helênico nos Pais da Igreja serviu como embrião nos séculos II e III na formação do dogma trinitário posteriormente e o próprio catolicismo romano admite como sua a alteração do texto de Mateus.

2 - O Concílio de Niceia foi um divisor e determinador na questão da formação do dogma trinitário, que posteriormente passou a ser matéria de fé.

3 - Se o pensamento ordinário dos evangelhos e epístolas mostra o processo de transmissão do ensino, qual seja, Jesus agia "em nome de Deus" e os discípulos agiam "em nome de Jesus", significa que até mesmo o batismo estaria nesta ordem, pois do contrário careceria de sentido.
Exemplos podem ser confirmados com os seguintes textos: Colossenses 3:17; Atos 8:16; 1 Cor. 1:13; Romanos 6:3, Gálatas 3:27.

4 - A igreja cristã se apropria de apenas "um" texto (Mateus 28:19) para batizar em nome da Trindade, em detrimento de várias outras passagens que apoiam o ensino apostólico de que os batismos eram realizados apenas "em nome de Jesus". Qual seria a explicação para isto?




Acredito que com base nestas informações, nossa fé deve ser re-pensada e procurar ser firmada em raízes mais sólidas. Os protestantes alegam seguir somente a bíblia, mas não conseguem dar um passo a frente a fim de compreender que a doutrina da trindade não tem base bíblica, mas tem cunho filosófico grego. A maior prova, diria, é que nenhum teólogo consegue explica-la utilizando somente a bíblia. Ao contrário, explicar com a bíblia a unicidade de Deus é bem fácil. (Cf. Deut. 6:4; Marcos 12:29).

A pergunta que fica é: Por que aceitar uma doutrina que levou até 3 séculos depois de Cristo para ser formulada e que foi debatida ao longo de décadas e "imposta" depois pelos Concílios?

A doutrina da trindade na verdade foi decidida por tentativa e erro. Essa cadeia incomum de eventos é a razão pela qual os professores de teologia Anthony e Richard Hanson, em seu livro: [A crença razoável: Um Estudo da Fé Cristã] resumiram a história anotando que a adoção da doutrina da trindade foi o resultado de “um processo de exploração teológica que durou pelo menos trezentos anos" . . . Na verdade, foi um processo de tentativa e erro (ou de muitos erros e poucos acertos), onde o erro não foi limitado ao que não era ortodoxo . . . Seria tolice representar a doutrina da Santíssima Trindade como tendo sido alcançada por qualquer outro meio. (grifos meus). [1]


A doutrina da Trindade se desenvolveu gradualmente após a conclusão do Novo Testamento, no calor da controvérsia, mas os padres da igreja que a desenvolveram acreditavam que estavam simplesmente fazendo uma exegese [explicação] da revelação divina e de forma alguma estavam especulando ou inventando novas ideias. A integra da doutrina da Trindade foi especificada no 4 seculo em dois grandes concilios ecumenicos (universais): Niceia em 325 D.C e Constantinopla em 381 D.C. [2] (grifos meus).

O desenvolvimento desta doutrina se deu ao longo de muitos séculos e seu termo chegou no ano de 381 E.C como vimos na citação acima.

Veja o que diz o site Ecclesia a respeito disto:

Não se fizeram esforços nos primeiros tempos para trabalhar estes complexos elementos em um todo coerente. A sintese final demorou mais de 3 seculos, quando no ano 381 o Concílio de Constantinopla ratificou a fórmula de um só Deus em três pessoas co-iguais. [3]

As "fontes" dos quais os trinitarianos retiram sua crença estão arraigadas nos escritos dos pais da Igreja, cujas obras contribuíram para a formação final do dogma no 4º Século E.C.

No entanto, podemos inferir que os chamados "pais da Igreja" não deixaram explicito o conceito, sendo este mais bem elaborado à partir de Orígenes de Alexandria.

Justino, por exemplo, procura dar justificação racional ao ensino trinitário, tentando primeiro provar que o "Logos" era outra pessoa independente do Pai, apoiando-se em versículos como Gênesis 1:26 e Provérbios 8:22. Chega a afirmar o seguinte:

Sendo Verbo e primogênito de Deus, Ele também é Deus. "Assim, portanto, Ele é adorável, Ele é Deus", e "nós adoramos e amamos, depois de Deus, o Logos derivado de Deus incriado e inefável, vendo que por nossa causa Ele se fêz homem".

Teófilo de Antioquia também defendia que as teofanias do Antigo Testamento na verdade eram aparições do Logos [Jesus]. Isso é o que se chama de "preexistência do Logos".

Teófilo foi o primeiro escritor a aplicar a palavra "tríade" à Divindade, afirmando que os três dias que precederam a criação do Sol e da Lua... 

..."foram figuras da tríade, isto é, de Deus, de seu Verbo e sua Sabedoria". 

Mas, do ponto de vista histórico, um dos primeiros a utilizar no Ocidente cristão o termo "Trindade" para expressar a ideia de que a unidade divina existiria em três pessoas distintas, foi Tertuliano. 

Tertuliano é o grande criador do vocabulário trinitário latino e procura justificar sua doutrina exibindo Deus como formas, manifestações e graus que se distribuem nos nomes Pai, Filho e Espirito Santo.

No início do Século III, em sua obra "Adversus Praxeas" (2,4; 8,7), ele utilizou o termo latino de "trinitas". Antes disso, e no Oriente cristão, só há o registo do termo grego "Τριας" (trias) nos escritos de Teófilo de Antioquia ("Três Livros a Autolycus", 2, 15) redigidos por volta do ano de 180 d.C. [4]


Foi assim que começou a se formar, portanto, o "embrião" que deu posteriormente forma final ao dogma trinitário. Especulações filosóficas e nada de teologia puramente bíblica.


Des-dogmatizar o cristianismo...é preciso!!


Podem até me tachar de "teólogo liberal", mas liberal e magnifica é a ideia do grande teólogo alemão - Adolf Von Harnack - onde em sua obra "A história do Dogma" propõe a des-dogmatização do cristianismo.

Harnack dizia com base na história que o cristianismo primitivo foi distorcido pela infiltração de outros pensamentos dentro da doutrina cristã como a filosofia grega. Nos concílios, a filosofia grega formou os dogmas, até mesmo em termos como ousia e hypostasis. 


O evangelho foi então helenizado, perdendo sua característica [eu diria, característica judaica]. Sua proposta era que, a religião deveria voltar ao simples evangelho de Jesus e abandonar os dogmas. 


O teólogo, para Harnack, tem a função de des-dogmatizar a fé e não ensinar dogmas, afastando mais ainda o evangelho de sua essência. [Precisamos de teólogos assim nos dias de hoje].

Na verdade, me vejo como um "liberal-teólogo", aberto e procurando sempre estar assim às revelações que surgem da palavra de Deus (AT e NT), pois esse sentimento repousa no protestantismo clássico (pelos menos deveria repousar). 

E, ademais, espero (mesmo que isto seja impossível) encontrar uma forma de realizar o vaticínio de Harnack, de afastar a igreja de Deus de seus dogmas pré-estabelecidos em Niceia (des-dogmatizar), e retornar às raízes judaicas do cristianismo primitivo. 
Sobre "primitivismo", acesse: http://valle-teologo.blogspot.com.br/2014/04/sou-primitivista-sim-por-que.html

É oportuna a frase que um amigo e colega de seminário uma vez me disse: O dogma é uma praga. Entendo hoje a força desse pensamento!

O dogma limita você a não buscar mais e mais compreensão de sua fé nas escrituras, além de colocar Deus dentro de um molde e determinar o que Ele deve ou não deve fazer, tornando você uma pessoa intolerante, não respeitando e estigmatizando como "herege" aquele que não crê corretamente como você (orto - doxia) . É uma venda aos olhos da fé. 
Acesse aqui para entender o que penso sobre "dependência teológica": http://valle-teologo.blogspot.com.br/2013/10/dependencia-psicologica-o-que-e-isto.html


Segundo o Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 88, dogma se define assim: 

O Magistério da Igreja empenha plenamente a autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando, utilizando uma forma que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, propõe verdades contidas na Revelação divina ou verdades que com estas têm uma conexão necessária. (grifos meus) [5]


Dogma no sentido atual, 
portanto, é aquilo que se deve crer como matéria de fé para ser um cristão e não cabe questionamentos. É irrevogável. Tem caráter obrigatório e ponto final.
E é nisto que está minha crítica. O pensamento do que se deve crer a respeito de Deus não pode ter caráter obrigatório ou ser fixado por homens, pois Deus não se limita aos caprichos dos homens ou de instituições. Esqueceram que Ele é o Soberano e Criador do Universo? 

Como Paulo diz: 


Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? [Romanos 11:33-35]


A noção, a meu ver, apurada de não se submeter aos credos, está nesta belíssima citação de um pioneiro adventista do 7 dia, o que faz com que o crente retorne à bíblia sem a mediação dos sistemas humanos:


O primeiro passo para a apostasia é estabelecer um credo e dizer que devemos crer nele. O segundo é fazer desse credo um teste de discipulado. O terceiro é provar os membros por esse credo. O quarto passo é denunciar como heréticos aqueles que não crêem no credo. E, quinto, persegui-los por isso’. (John Loughborough, 1861)

Uma sequencia, a meu ver, lógica e com um alcance muito profundo, percebam:


1º passo para a apostasia = Estabelecer um credo / dizer que "devemos" crer nele;


2º passo para a apostasia = Fazer desse "credo" um teste de discipulado;


3º passo para a apostasia = Provar os membros por esse "credo";


4º passo para a apostasia = São "hereges" os que não crêem nesse "credo";


5º passo para a apostasia = perseguir quem segue o referido "credo".


E não é exatamente isto que as igrejas fazem na atualidade?


Fica sobremodo patente algumas questões: 



  • Se a doutrina trinitária é (era) bíblica, por que somente foi compreendida em plenitude (?) e definida apenas no 4º século, depois de Cristo?


  • Se é um dogma, porque sofreu uma evolução?


  • Se foi necessário explicá-la e compreendê-la por causa da consciência que a Igreja ia adquirindo ao longo do tempo (evolução), isto mostra que não era algo bem definido em sua forma inicial.


  • Por que utilizar terminologia não-bíblica para explicar - ou tentar explicar - algo que a bíblia diz? As palavras das escrituras deveriam ser suficientes!


Eu concordo que uma doutrina pode passar por uma interpretação humana e isto gerar divergência de interpretação, mas isto não significa que após esta sofrer uma análise, haja completamente uma mudança no entendimento a respeito dela, esquecendo-se das próprias passagens bíblicas a respeito.




 MINHA ANÁLISE CRÍTICA E TEXTUAL SOBRE A TRINDADE


A trindade não foi conhecida dos primeiros cristãos cujo "credo" era o mesmo de Jesus. (Cf. 1 Tim. 2:5; 1 Cor. 8:6), conforme costuma-se mencionar. (Não estou falando dos chamados pais apostólicos),


Não se pode esconder a clareza destes dois versículos citados acima, onde nos é mostrada a clara distinção de pessoas e a atribuição de Divindade apenas e exclusivamente ao Pai.



Afirmo com convicção, que Jesus recebe o título "Deus" no NT em apenas 6 passagens e ainda assim depende da versão utilizada e de sua construção gramatical no grego, o que pode proporcionar uma tradução e entendimentos diferentes do que admite a ortodoxia cristã.



São estas as passagens: João 1:1; João 20:28; Rom. 9:5; Tito 2:13; Hebreus 1:8; 1 Tim. 3:16.




CITANDO ALGUNS EXEMPLOS



1 TIMOTEO 3:16


No caso de 1 Tim. 3:16, a ACF e a AA diferem de tradução, e em uma pesquisa rápida foi percebido que somente a KJV e a Reina-Valera utilizam o vocábulo Deus neste texto referindo-se a Cristo. Todas as outras versões, inclusive as versões católicas mostram que o versículo refere-se a Cristo, não a Deus.



Versão ACF - E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: DEUS se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória. (grifos meus)



Versão AA - E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: AQUELE que se manifestou em carne, foi justificado em espírito, visto dos anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, e recebido acima na glória. (grifos meus).



A maioria dos manuscritos antigos abreviava os nomes sagrados (“os chamados NOMINA SACRA”) e foi esse o caso aqui, onde o termo para “DEUS” – do grego THEOE foi “abreviado como - Θ∑ - (Teta-Sigma), com uma linha traçada no topo das duas para indicar que se tratava de uma abreviatura”. 


Foi percebido pelo pesquisador bíblico do século 18, J. J. Wettstein, que a linha sobre as duas letras fora feita com uma tinta diferente da que fora usada para as palavras circundantes, de onde se depreendeu que na verdade fora feita mais tarde, por um copista posterior. Além disso, o traço horizontal da primeira letra não fazia realmente parte da letra, mas era uma linha que vazara desde o outro lado do velho velino. 

Em outros termos, em vez de se tratar de uma abreviatura TETA-SIGMA de DEUS, (Θ∑), a palavra era realmente formada por um OMICRON E UM SIGMA – (О∑), uma palavra completamente diferente que significa QUEM, QUE. 

A redação do texto não falava de "Cristo como sendo DEUS MANIFESTO EM CARNE", mas "AQUELE QUE SE MANIFESTOU EM CARNE”. 

Basta comparar este verso, além de muitos outros, com 1 João 4:2,3. Quem veio em carne, Jesus ou O Pai? E João ainda mostra a diferença entre ambos.



JOÃO 1:1


No caso de João 1:1 atentem para o que se segue:

No grego não diz: E a palavra era Deus;

Diz assim: E Deus era a palavra. 

A construção gramatical no grego foi invertida quando se fez a tradução. Por quê? 

Citaremos abaixo esta fraseologia de João 1:1 em duas línguas, o grego e o latim [6]. 

Verbum em latim é neutro e se traduz por palavra e nunca por Verbo (com V maiúsculo), como em português, querendo enfatizar que se trata de uma pessoa Divina ao lado do Pai. 


JOÃO 1:1 (EM GREGO) 

EN ARKHÊ ÊN O LOGOS KAI O LOGOS ÊN PROS TON THEON KAI THEOS ÊN O LOGOS. (observe o sentido no grego na parte grifada).


No principio era a palavra (logos) e a palavra (logos) estava junto de Deus e Deus era a palavra (Logos).



JOÃO 1:1 (NA VULGATA LATINA) 

In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum 


NO PRINCIPIO ERA A PALAVRA E A PALAVRA ESTAVA COM DEUS E DEUS ERA A PALAVRA. 


Note o leitor que nas traduções comuns há uma distorção, o texto originalmente fala DEUS ERA A PALAVRA e não A PALAVRA ERA DEUS. 


Na frase em latim DEUS ERAT VERBUM, DEUS está no nominativo, logo Deus é o sujeito da oração. Quando dizemos DEUS ERA A PALAVRA, Deus é o sujeito da frase, mas quando dizemos A PALAVRA ERA DEUS, tornamos A PALAVRA o sujeito da frase e lhe damos um atributo – SER DEUS – o que não está no original grego nem no latim. 


Se formos ao livro do Gênesis vamos ver que todas as coisas foram criadas através da palavra de Deus; por exemplo:  Disse Deus, haja luz e houve luz.  

Se admitirmos que O Verbo (com V maiúsculo) era Deus, como está nas nossas traduções, então temos dois deuses, porque mesmo a doutrina da trindade admite que são pessoas distintas. Sendo assim, se O VERBO ESTAVA COM DEUS E ERA DEUS - segue-se que são 2 DEUSES e não 1. (Quebra do Monoteísmo bíblico). 


Mesmo que alguns tradutores, como os da Torre de Vigias (Testemunhas de Jeová) insistam em que se deve colocar o artigo indefinido – UM – entre colchetes antes da palavra THEÓS (E A PALAVRA ERA [UM] DEUS) [7], admitem que na construção em grego não existe tal “artigo indefinido antes de THÉOS”, mas cometem o mesmo erro da maioria das traduções – invertem o sentido da frase na tradução, alterando portanto seu significado e atribuindo ao LOGOS uma pessoalidade, não uma característica. 

O LOGOS DE JOÃO no Novo Testamento tem as mesmas características do DAVAR do Antigo Testamento, possui uma dimensão que comunica um pensamento, uma intenção, ou seja A PALAVRA QUE CRIA E GUIA A HISTÓRIA. (Veja Isaías 55:10,11).



JOÃO 20:28 



Em João 20:28 é claramente perceptível a exclamação de Tomé diante do aparecimento do Cristo ressuscitado: Note o ponto de exclamação no texto.



(E Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!). Observe que se trata de uma reação de espanto por parte de Tomé, pois no v. 25, ele fala que se não visse os cravos e não pusesse o dedo ali, de maneira nenhuma creria.




E também pelo simples fato de que no mesmo capítulo, quando Jesus diz a Maria para ir a seus irmãos, Ele diz: ...vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, MEU DEUS E VOSSO DEUS. (v. 17).


Ora, depois de ressuscitado segundo os trinitarianos, Jesus voltou a sua condição de “DEUS” no céu, então se Jesus assim o fosse, por que dizer aos discípulos – MEU DEUS E VOSSO DEUS? (Jesus teria UM DEUS acima dele?)


A palavra "Deus" também não é nome pessoal, é um substantivo usado como título que aplicado a determinados seres, expressa autoridade, grandeza, poder. Vem do hebraico "ELOHIM" E DO GREGO "THEÓS'.

Isso é muito fácil de entender quando vemos na bíblia homens, anjos e até os deuses pagãos recebendo este título. (Ex. 7:1 / Sal. 8:5 / Juizes 16:23, somente citando alguns).


Os trinitários alegam que por ser ELOHIM (uma palavra plural masculina), denota a pluralidade de pessoas no único Deus (O QUE ELES CHAMAM DE DEUS TRI-UNO).

Mas o fato é que “ELOHIM não expressa "quantidade numérica" e sim "grandeza e autoridade". No judaismo Elohim é conhecido como Plural majestático. [8]

Para os que crêem que DEUS é TRI-UNO, atentem para a pergunta que o profeta Isaías faz utilizando a palavra que é a singular de Elohim – ELOHA (DEUS) e aplicada apenas ao único Deus, veja:

Porventura há outro Deus (Eloha) fora de mim? Não, não há outra Rocha que eu conheça. (Isa 44:8).

Do mesmo modo, lemos nos Salmos: Porque quem é Deus (Eloha) senão Yahweh? E quem é rochedo senão o nosso Deus? (Salmos 18:31).




A Trindade não é e nunca será relevante para a nossa salvação. E, afirmo isto com base exclusiva em João 17:3, além dos textos citados acima:



E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste.



Jesus dirige a palavra ao Pai (v. 1) e afirma que a vida eterna (dada através do Filho v. 2) consiste em "conhecer" (Ginôskôsin - conhecer intimamente) este Pai como o "Único" Deus verdadeiro. O que significa a palavra "único" para o intérprete das escrituras?

Como pode um hermeneuta bíblico torcer este texto tão claro? Compare este texto com os seguintes:

1 Timóteo 2:5; 1 Cor. 8:4,6; Efésios 4:5,6; Tiago 2:19; Marcos 12:29 e 32; 1 Cor. 1:3; João 20:17 (aqui Jesus chama o Pai de "Meu Deus").



PROCESSO DE MUDANÇA


Podemos entender que houve a necessidade de se modificar o conceito unitário de Deus para o trinitário, mas foi preciso primeiro modificar o entendimento a respeito da natureza e ontologia de Jesus. 

A distorção começou com a ideia de que Jesus tinha uma preexistência humana e depois que Jesus tinha duas naturezas fundidas em um só ser, o que levou à encarnação.

A trindade fere o senso comum e lógico do ser humano, onde um ser possui duas naturezas, sendo 100% Deus e 100% homem.

Ora, se um ser é 100% Deus, ele é Deus 100%. Não cabe outra parte.
Se um ser é 100% homem, ele é homem 100%. Não cabe outra parte.

Ao criar este conceito de que Cristo é 100% Deus e 100 % homem (???), distorcemos o sentido de natureza comum e adotamos (implicitamente) a ideia de que este ser é uma criatura híbrida. Além disto, as implicações teológicas deste conceito são enormes, veja:

Se Jesus não perdeu a sua "parte 100% divina" quando esteve aqui na terra, o que ocorreu quando ele morreu? Para onde foi sua divindade? As escrituras são diretas em afirmar que Jesus "morreu" de fato por 3 dias (deixou de viver). Será que o mundo ficou sem Deus durante 3 dias? Cf. 1 Cor. 15:3; Rom. 5:6,8; Rom. 14:9.


Se somente a "parte 100% humana" morreu, pois JESUS COMO DEUS NÃO PODERIA MORRER, pois Deus não morre (1 Tim. 6:15,16), então poderíamos crer que o docetismo estaria com a razão e a morte de cruz foi apenas um belo teatro, cujo personagem principal era o próprio Deus. Enganando a todos, inclusive ao diabo. 

Eu vejo, portanto, o trinitarismo ligado intimamente com o docetismo.


Há os que entendem que Jesus teria que ser assim (100 % Deus e 100% homem), porque se não fosse como Deus, não poderia ter vencido o pecado e se não fosse humano, não poderia ter realizado o pagamento pelo preço da salvação da humanidade.


  • Eu pergunto: O pecado foi cometido por qual ser? Deus ou o homem?


A Soteriologia bíblica postula que o preço do pecado deveria ser pago apenas por um homem (seguindo a linha de Rom. 5:12,19 e 1 Cor. 15:21,22), digo isto com base numa questão de fato, a meu ver, bem simples:

Se o pecado foi cometido por um "homem" (homens pecam, Deus não), a lógica do ensino paulino é que somente por outro "homem", o pecado poderia ser destituído, pois com certeza Deus, por sua própria natureza estaria "impossibilitado" de realizar tal tarefa. Legalmente Deus nunca poderia pagar o preço do pecado.





Aliás, foi exatamente isto que aconteceu. O pecado foi destruído na cruz pelo sacrifício humano do próprio Cristo. Veja Hebreus 9:26,28 (Sacrifício e sangue são palavras muito fortes neste texto que enfatizam a realidade do ser de Cristo).



Ou seja, não foi o Pai quem realizou o sacrifício (patripassionismo), ou o Deus-Filho (100 % Deus e 100% homem). Foi o Filho de Deus com sua natureza plenamente humana. 


Outro fato interessante é que Paulo não compara Moisés com Adão, Abraão com Adão, mas Cristo com Adão, e ainda assim chama os dois de "homens", por que será?

Veja que Paulo nos fala de um homem, Jesus, para nos trazer a salvação, pois legalmente Deus não poderia fazer isto. Deus não peca e não pode morrer!


CONCLUSÃO


Você pode continuar aceitando como dogma quaisquer doutrinas, inclusive a trindade. Mas, para sua reflexão, penso que ela deve ser avaliada à luz dos escritos neo-testamentários e veterotestamentários, bem como conhecer o seu desenvolvimento ao longo da história.
Se você perceber que a doutrina não se encaixa com o padrão (cânon), rejeite-a imediatamente, mesmo às custas de quaisquer status ou posição que venha a ter em sua comunidade.


 ABANDONE A TRINDADE E VOLTE-SE PARA O ÚNICO DEUS!



MARCELO ALEXANDRE DO VALLE














NOTAS e REFERENCIAS

[1] (Reasonable Belief: A Survey of the Christian Faith, 1980, pág. 172).



[2] (The Trinity, 2002, págs. 1-2). 

[3]http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/a_santissima_trindade_nos_escritos_dos_santos_padres_dos_primeiros_seculos.html#I 

[4 ] http://www.catequisar.com.br/texto/materia/celebracoes/trindade/e_02.htm

[5] http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c2_50-141_po.html

[6] tradução de João 1:1 feita pelo Profº. Eloy A. Vargas
(FONTE: www.adoraiaocriador.com) 

[7] http://www.jw.org/pt/publicacoes/biblia/nwt/livros/Jo%C3%A3o/1/

[8] http://caraitas.org/articulos/gordon/elohim-parte-1.html